Capta é um produto de captação e qualificação de leads que eu descobri, desenhei, codei e coloquei no ar sozinha — e que hoje roda com clientes reais da agência.
Como agência, a gente entregava sites bonitos e campanhas que geravam contato. O problema aparecia depois da entrega.
O contato caía no WhatsApp do cliente e morria lá, misturado com fornecedor, cobrança e grupo de família. Ninguém sabia quem valia responder primeiro, quantos contatos entraram no mês, nem o que aconteceu com quem não fechou.
O efeito colateral era nosso: sem registro, o cliente não enxerga retorno — e o trabalho da agência vira achismo na hora de renovar.
Não era falta de lead. Era o que acontecia com ele depois de chegar. E o público não ajudava: microempreendedor e pequena empresa, sem time comercial, sem paciência para CRM, respondendo cliente do celular no meio do serviço.
Qualquer solução tinha que caber em três restrições ao mesmo tempo: ser útil no primeiro dia, funcionar no celular com internet ruim e custar pouco o suficiente para ser uma decisão fácil.
Em vez de mais um CRM genérico, o Capta inverte a ordem. Antes de cair no WhatsApp, a pessoa responde um formulário curto que já pergunta o que importa — o que ela quer, para quando e com qual folga de orçamento. Cada resposta vale pontos, e o lead entra no painel já com temperatura.
Nome, WhatsApp e três perguntas. A primeira já separa quem quer contratar de quem só está tirando dúvida.
A pontuação é definida por ramo. Em um cliente de calhas, o peso maior está no tipo de serviço, no tipo de imóvel e na urgência — "tem goteira agora" pesa muito mais que "estou pesquisando". O dono não precisa entender de score: ele abre o painel e vê por onde começar o dia.
O maior risco de um produto assim não é técnico, é o primeiro dia: a pessoa cria a conta, vê um editor de formulário vazio e desiste. Resolvi isso no design, não com tutorial.
O formulário principal já vem com três perguntas que qualificam qualquer nicho: intenção, urgência e orçamento.
Perguntas prontas para 14 tipos de negócio — clínica, beleza, festas, reformas, imóveis, pet e por aí. Escolhe o ramo, clica em usar, edita se quiser.
Enquanto não existe lead, o painel mostra um único card: copie seu link e divulgue. Ele some quando o primeiro lead entra.
QR code para imprimir e deixar no balcão, e um gerador de botão flutuante que devolve HTML puro para colar em qualquer site já existente.
A IA entrou como luxo, não como muleta: os padrões gratuitos tiram a pessoa do escuro, e a geração de perguntas por IA personaliza depois. Se a IA falhar, o produto continua funcionando.
Primeira abertura, formulário principal já pronto com três perguntas, e o link para divulgar. Nenhuma tela em branco no caminho.
A primeira escada tinha um degrau que não vendia nada: um plano pago que entregava quase o mesmo que o gratuito. A régua que passei a usar é simples — cada degrau precisa vender um verbo diferente, senão ele não existe.
Parar de perder contato. Entrada sem fricção e sem cartão.
Onde entra a temperatura. Repreçado para baixo dos três dígitos, porque a entrada precisa ser uma decisão fácil.
A agência opera o funil pelo cliente. Deliberadamente não é self-service: é serviço, e serviço escala com gente.
Software é mensal e escala sozinho; serviço é projeto. Site continuou sendo serviço da agência — virar construtor de sites canibalizaria o trabalho premium.
Os planos como estão hoje no painel administrativo. Valores de receita borrados.
Véspera de um evento em que o Capta ia rodar ao vivo pela primeira vez.
Fiz o teste como usuária: preenchi o formulário de um dos negócios, cheguei na tela de sucesso, fui para o WhatsApp. O lead não apareceu no painel. Do lado da tela, tudo tinha dado certo.
Fui ao banco separar as duas hipóteses — não gravou, ou gravou e não pontuou:
select count(*) from capta_leads where criado_em > now() - interval '1 hour'; → 0 select tgname, tgenabled from pg_trigger where tgname = 'trg_capta_score'; → trg_capta_score | O (enabled)
Zero linhas gravadas, gatilho de pontuação ativo.
Duas consultas mataram metade das hipóteses: o problema era a gravação, não o cálculo. A causa era sutil — depois de gravar, o código pedia a linha de volta, e essa leitura exigia uma permissão que o visitante anônimo não tem. A permissão negada cancelava a gravação inteira, e o erro morria em silêncio: a pessoa via "deu certo" e seguia para o WhatsApp.
Correção em quatro camadas: gravar sem pedir a linha de volta, três tentativas, tela de erro honesta com "tentar de novo", e uma fila local que reenvia o lead no próximo acesso — porque em evento e em obra a internet cai. Testado, corrigido, e no dia seguinte o fluxo rodou de ponta a ponta com gente de verdade.
Quase toda melhoria depois disso veio de uso real, não de backlog imaginado.
Instalado, o PWA abria na página de vendas em vez do painel — quem já é cliente não quer ser vendido de novo. Passou a abrir logado, com atalhos para leads e divulgação.
Botão de WhatsApp em cada lead, com mensagem já escrita usando o primeiro nome. É onde um CRM vive ou morre: no atrito do dia a dia.
Anotação por lead, salvando sozinha — pensada para registrar conversa no meio de um evento, sem botão de salvar.
Pedidos que só aparecem quando a lista passa de algumas dezenas. Antes disso, seriam ruído na interface.
E um caso clássico de estado esquecido: um formulário cadastrado sem perguntas abria o link público vazio. Hoje o sistema sempre escolhe um formulário com conteúdo e avisa quando algo está incompleto.
O impacto aqui não é um gráfico de vaidade: é ter tirado um produto do zero ao ar, com cliente pagante usando, sozinha — decidindo desde o preço até a linha que grava o lead.
Design não para no protótipo. Depois de anos desenhando produto dentro de time grande, o Capta foi onde peguei a cadeia inteira — e onde ficou claro que as decisões mais importantes não estavam no Figma: estavam no degrau de preço que sobrava, no card que some quando o primeiro lead entra, e na consulta que revelou que "sucesso" era mentira.
A interface pode mentir; o dado não. Saber ler o banco deixou de ser bônus técnico e virou parte do meu trabalho de designer.
Em andamento: automação de resposta e follow-up, remarketing para quem não fechou, e importação automática do formulário do site do cliente para dentro do Capta.